Tanto tempo passou, e mesmo assim ainda entras nos meus sonhos? As cores perdem a sua vivacidade. E nada brilha como antes. Por isso escrevo estas palavras a preto e branco, para não pensares que ainda és importante (embora o sejas). Eu adoro estrelas, e naquela noite o céu estava carregado delas, com vários tamanhos e intensidade de luz. As minhas pernas tremiam só de pensar que íamos jantar, sentia-me especial. Era tudo perfeito, não conseguia encontrar nenhum erro. Eu nem os procurei. Sentia-me completo e vivo. Como não me sentia á muito tempo. Levantaste-te da mesa, sem nenhuma palavra. Mas não dei importância. Pensava que voltavas. Mas mais uma vez enganei-me em relação a ti. O teu bilhete não era nada esclarecedor, e as lágrimas fizeram questão de estragar a perfeição da tua letra. A partir desse momento, os teus erros começaram a sobressair por debaixo da cortina que tinhas montado. E dou-te os parabéns porque realmente estava magnifico. As ruas de Lisboa, conhecias a quase todas naquela noite, até o primeiro raio de luz me dar a direcção para a minha nova casa. Não sei quem era aquela pessoa, nem porque a segui. Mas a verdade é que ela preencheu o espaço que tu deixas-te vazio durante anos. Embora a tua presença se deita-se todos os dias comigo. As memórias do nosso coração, não se podem apagar facilmente como eu apaguei a única memória material que tinha de ti. Eu nem tinha ficado muito bem naquela fotografia. O vento pode levar tudo, mas devolve-nos muita coisa, e parecia que a tua memória não queria ir embora. Não sei o que me deu, mas esperei por ti no lugar que mais te caracteriza. Olhei para aquele imenso mar, e lembrei-me que tinha sido o primeiro local onde tínhamos ido juntos. Como era certo, tu não apareces-te. A vida passou tão rápido, eu evolui e flui nesta terra de Deus. No meio dos prédios e poluição diária, a minha vida encontrava-se algures por ai. Um dia a luz apagou-se e só sentia um chão cheio de pedras, uma brisa forte e marítima. As minhas pernas tremiam, não por ti. Mas pelo medo que sentia na altura. Um medo que se entranhava na pele, e me consumia por dentro. O receio de dar um passo em falso, como tantos outros que dei pela vida fora, de uma forma bem diferente! Senti a tua presença. O formato do teu rosto não mudara nada. E por mais surpreendido e enraivecido que estivesse por o que me fizes-te. Abracei-te. ‘Eu estou contigo’. Foi a única coisa que me disses-te em que eu senti verdade nas tuas palavras. Deixei-me levar, e esse foi o meu maior erro. Porque deixei de sentir o chão.