13 setembro 2008

* a tua lembrança.

Estou sentado no meio escuridão, e mais uma vez não consigo dormir e não sei porque mas ouço anos 80, por mais estranho que pareça eram as tuas preferidas, não era? Hoje não é o teu aniversário, nem anos de partida, mas subitamente bateu-me aquela saudade. Entendes? Nada há nada mais para fazer cá em casa, nem a chegas-te a visitar. Irias adorar, é bem diferente da outra. Há poucos dias fiz 19 anos, já não vivo com os meus pais. Agora estou e viver em Lisboa, estudo também, Turismo. Estou de férias naquela nossa terra, este Verão nem fez muito calor. Acreditas? Já não é a mesma coisa. Mas enfim. Hoje deitei os jornais mais velhos fora, e limpei os pratos sujos. Olho para estas pequenas flores no parapeito da janela e vejo que precisam de ser regadas. Lembro-me como se fosse ontem que me dizias, “és mesmo desleixado com as coisas!”, com aquele teu sorriso contagiante, a passares a mão no meu cabelo, porque sabias que me irritavas por ficar despenteado. Eu era feliz não era? Sabes que por mais surpreendente que fosse, não estou com as lágrimas nos olhos, nem triste por estar a escrever estas palavras. Mas sim com um sorriso, por recordar tanta coisa que parecia que o passado já tinha levado. Já se passou tanta merda desde a tua partida, e acho que hoje serias a pessoa perfeita para eu contar tudo, se não me engano já lá vão quatro anos, quase cinco. Sabes o que ainda tenho comigo? A tua carta. Com a tinta um pouco borrada por causa das lágrimas lá caídas, mas ainda esta descansado porque ainda é legível.

“Para: Filipe.
Nem as coisas mais belas escapam a uma tragédia. Fiz uma coisa, e sei que sou culpado. Engraçado é que não me sinto mal por isso, foi óptimo. Mas errado! Sei que quando leres isto, vais pensar que afinal a culpa foi tua, mas não. Estas totalmente errado, como sempre. Porque eu é que tenho sempre razão, lembras-te?A culpa distrai-nos da verdade, sempre tivemos a capacidade de auto-curarmo-nos. Somos capazes de sobreviver inclusivamente ás piores dores. Sabes como? Com a prática. Esta é só uma delas. É para ires aprendendo. Eu disse-te que um dia ensinaria-te alguma coisa de útil para o futuro. Então esta é a tua primeira lição: aprender a lidar com a minha ausência física, porque eu sei que vou estar sempre presente, e onde também.”

Não fui capaz de me despir de ti, vi-te de longe. Era imensa gente, e eu não tinha coragem para fazer aquilo que devia ter feito, ir ficar perto de ti, nos últimos momentos em que te ia ver. O que tenho para te contar ainda não acaba aqui, alguns dias depois, os teus pais decidiram ir embora daqui, diziam que seguiriam para um pais distante. Nunca mais soube nada deles, mas fui ter com a tua mãe, peguei na mão dela, abri-a e lá coloquei-lhe o teu relógio (sim, aquele cor de laranja e azul que tu adoravas, e que tinhas esquecido um dia lá em casa), por mais que me conte-se as lágrimas caiam de fio, e disse-lhe, “Era muito amigo do seu filho, ele perdeu o relógio. Quero que saiba que sinto muito. Aterroriza-me saber que posso lhe ter causado uma dor destas!”. Ela, naquele momento, percebeu tudo e abraçou-me. E disse-me que nunca na vida dela, tinha visto o filho tão contente, como ela te tinha visto, naquele dia. Obrigado!

(1985-2004)

Música: Don't Dream It's Over (artist: Crowded House / album: Journeys)